Não precisa ser instruído nem muito inteligente para chegar em qualquer cidade, próximo de 100 mil habitantes ou mais, e perceber como são excludentes e prejudiciais, as decisões de nossos administradores e legisladores públicos, a respeito do que significa transporte público para pessoas. Pouquíssimas cidades fogem a essa situação. Estas não são objeto deste artigo, assim como não é, o metrô, por ser transporte que se aplica a poucas cidades.
Toda pessoa maior de idade tem direito a ter um veículo? Sim. Toda pessoa maior de idade, que tem um carro, tem direito de ir trabalhar com ele? Sim. Se toda pessoa que possui veículo utilizá-lo como meio de transporte para ir trabalhar as ruas comportam? NÃO.
Então o que leva uma pessoa a decidir ir trabalhar com o próprio carro todos os dias? Seguramente, a condição financeira que tem, aliada à praticidade que gera. Logo, aquele que vai de transporte público – principalmente de ônibus – só o faz por não ter condições de bancar as despesas de um veículo e por não ter outra opção, pois se tivesse não iria de ônibus.
Como é possível considerar o transporte público bom e atraente, se o sonho de quem o utiliza, é não usá-lo mais?
Quer humilhação mais desprezível do que deixar explícito a uma pessoa que ela é pobre? Não basta as dificuldades que ela tem na vida – não importando aqui as razões – o sistema de transporte que está à sua disposição, precisa confirmar que ela não tem condições financeiras para usar outro meio.
Em sua maioria, ônibus e trens urbanos, são sujos, cheirando mal, sem ar condicionado, superlotados, por demais demorados, barulhentos, pontos de embarque e desembarque sem proteção adequada, poucos terminais de transbordo, sem preferência de vias e em semáforos (especialmente ônibus), etc.
Absolutamente claro que é um sistema para pessoas pobres. E grande número dos usuários desse sistema, por sua pouca instrução, jamais poderão conquistar a condição de ir trabalhar com seu próprio carro. Sob esta perspectiva, o mal maior é o que pode se desenvolver no coração dessas pessoas: o ressentimento. Pessoa ressentida não trabalha direito, pode ter mais problemas de saúde, problemas psicológicos, de relacionamentos, dificuldades de colaboração, etc.
Carro e cidade jamais se harmonizarão como algo natural, não foram feitos um para o outro. O que mais combina com a cidade é o transporte público e sempre pensando em maior número possível, mas para pessoas, não para pessoas pobres.
Aqui reside o principal desafio: mudar a cultura do veículo como meio de transporte dentro das cidades, incluindo as motos, pelos riscos que apresentam. Este é um daqueles debates necessários, que deveriam ser enfrentados por administradores e legisladores corajosos, e demais organizações da sociedade, não importando os entraves legais, burocráticos e daqueles que tem mais condições financeiras. Todos os esforços dos homens públicos deveriam concentrar-se nesta direção: PREFERÊNCIA ABSOLUTA para o transporte público, para atrair todo tipo de pessoa. E quem quiser ou precisar do veículo próprio para trabalhar? Sem problemas, saiba que o transporte público terá preferência.
Temos muitas cidades bem organizadas, limpas, com harmonia entre os elementos naturais e os edificados pelo homem; mas quando olhamos o seu sistema de mobilidade, número de veículos, motos, os estacionamentos nos espaços públicos, uma verdadeira tragédia. Com este sistema, a vida das pessoas sendo sugadas pelo tempo no trânsito dentro de um carro ou em um transporte coletivo ruim, perdendo saúde, convivência familiar, produtividade no trabalho, etc.
E como mudar esta realidade? Certamente não será fácil a solução. Porém o princípio de tudo é ter vontade e coragem de mudar. Além disso, os poucos exemplos de cidades do Brasil e as soluções já encontradas mundo afora, deveriam servir de inspiração, tanto para mudar leis como para criar políticas públicas direcionadas para esta prioridade: TRANSPORTE PÚBLICO PARA PESSOAS.
É surpreendente o número de autoridades que viajam ao exterior e retornam elogiando os sistemas de transporte que lá fora viram. E aqui quase tudo continua como está.
E nossas cidades, cada vez mais populosas, sob o ponto de vista aqui analisado, vão tornando a vida das pessoas num pedacinho do inferno.
Edésio Reichet

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