Por volta do ano 1990 estava em uma festa e após o almoço, duas senhoras, uma lavando a louça e outra secando, conversavam animadamente.

A que lavava a louça estava contando sua recente viagem de férias com a família, para a praia. Tinha sido uma semana maravilhosa, com muito sol, com passeios, com mergulhos, etc. A outra senhora que secava a louça, assim que a primeira deu uma “parada pra respirar”, começou a falar da sua viagem de férias, também para a praia. Porém ao contrário da anterior, tinha sido uma semana muito ruim, com muita chuva, com vômitos, com queimaduras de água viva, etc. Deu uma “parada pra respirar”, a que estava lavando continuou falando de sua semana, que foram para um parque de diversões, que foram em restaurantes ótimos, etc. A senhora que estava secando retorna falando outros fatos ruins de sua viagem.

No tempo que fiquei observando, em nenhum momento uma fez perguntas sobre a viagem da outra; ambas apenas falaram, cada uma de sua viagem.

Passados uns 20 anos daquela primeira observação, certo dia presenciei um senhor que chegou onde havia mais pessoas e disse: esta noite dormi mal, muita dor de cabeça, que noite horrível. Imediatamente outra pessoa falou: eu também dormi mal, mas pra mim foi dor no estômago, nossa, passei muito mal.

Em 2012 após iniciar a divulgação do livro Professor não é Educador, as questões ligadas à educação das pessoas cada vez mais entraram no meu radar de observações.

Em 2014, a partir de reflexões do livro acima, criamos o Movimento Pessoas Melhores – movimento que deixou de existir naquele formato, e de certo modo, transformou-se no Instituto Pessoas Melhores – que tinha entre seus objetivos, ajudar pais a educar melhor os filhos. Lembrando daqueles episódios descritos acima, incluímos entre as características de uma pessoa bem educada, o que na ocasião denominamos de “saber ouvir”.

Esta questão foi central: o que é recomendável para ouvir bem quem está falando? Prestar atenção no assunto que está sendo falado, olhar para a pessoa, observar sua expressão e fazer perguntas do mesmo assunto. Imagine aquelas senhoras perguntado uma à outra: em que praia foram? Conheceram outras praias? Foram só com a família ou mais alguém? Os problemas de saúde passaram logo ou duraram mais tempo? etc. E o interlocutor poderia ter falado àquele senhor: de fato, é horrível quando não se dorme bem. Tem dor de cabeça com frequência? Desconfia do que pode ser a origem dela? Fez alguma coisa para amenizar? etc.

Passados mais alguns anos, li no livro do Bob Chapman, ‘Todos São Importantes’, que “…a coisa mais poderosa que um líder pode fazer é escutar de forma profunda e verdadeira. Escutamos as palavras, mas raramente diminuímos a velocidade para escutar e sentir com nossos ouvidos para entender emoções, medos e preocupações ocultas…”

Tratando desse assunto com o amigo e Psicólogo Fabian Giordani, ele falou em “escuta ativa”, que da mesma forma, significa estar presente, prestar atenção, fazer perguntas para bem compreender a pessoa que está falando.

Por fim, a cereja do bolo, com os livros do Marshall Rosenberg, ‘Comunicação Não Violenta’, e ‘Vivendo a Comunicação não Violenta’, confesso, livros que deram um nó no cérebro levando-o a rever conceitos, hábitos, sobretudo ligados a muitos desnecessários julgamentos. O caminho para a verdadeira empatia passa por evitar juízos, evitar avaliações e apenas observar, a si próprio e ao outro, tentar captar os sentimentos e necessidades das pessoas envolvidas. “O primeiro passo da conexão empática é o que Martin Buber chamou de a dádiva mais preciosa que um ser humano pode dar a outro: a presença”. E continua, “…receber a mensagem com empatia, conectando-se com o que está vivo na pessoa, sem fazer julgamentos”.  

Esta comunicação proposta pelo Rosenberg, que já está produzindo efeitos positivos, dada a sua profundidade e sutileza, poderá, com o tempo, e muito, mas muito treino, em vários outros aspectos, ser incorporada na minha rotina diária.

Caro leitor, se ainda não havia feito reflexões a este respeito, experimente observar a si próprio e a outras pessoas. Muitos têm por hábito falar apenas de si, de seus projetos, de suas realizações, do que assistiram, do que conheceram, etc, bem à semelhança dos relatos iniciais do texto.

Concentrar-me na pessoa que está falando, tentar captar o que verdadeiramente está tentando dizer, fazer perguntas para melhor compreendê-la, é uma prática que requer bastante atenção e colabora para fazer progressos na direção da escuta com empatia.

E certamente como resultado, a sua vida e da outra pessoa será enriquecida, tornando-as mais maravilhosas.

Edésio Reichert

Março/2023


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