Domingo de manhã, clima super agradável de julho, sol com poucas nuvens, ideal para uma caminhada em parque, praça ou rua. E foi o que resolvi fazer com a cachorrinha da família, a Emy. E claro, levei a sacolinha e papel para recolher o cocô, caso ela fizesse.
Apenas uma quadra de caminhada e ela numa euforia imensa cheirando tudo o que podia e mais um pouco, 3 vezes fez xixi, chegando na esquina já fez cocô em um gramado um pouco alto.
Assim que chegamos na esquina vi que na mesma rua, lá pelo meio da outra quadra vinha duas pessoas andando com bicicletas.
Estava concentrado em cuidar da Emy e não dei importância para quem vinha lá.
Assim que a Emy fez o cocô, imediatamente em minha mente um pensamento bateu forte como se fosse uma ordem: não precisa recolher o cocô, afinal a grama está alta, ninguém vai ver. Numa fração de segundos aquele “diálogo” interior entre esta ordem e o que eu havia me preparado para fazer.
-Vou recolher, afinal é o certo a fazer.
-Mas não precisa, além da grama alta, ninguém está vendo.
Retirei o papel higiênico do bolso, estava me preparando para recolher o cocô e ouvi uma voz que veio de uma das bicicletas: e ai Edesio, como você está? Olhei e reconheci: era um dos supervisores que trabalhou conosco na empresa que sou sócio; e ele e seu filho de 8 anos.
Foi uma alegria rever esta pessoa, conversamos sobre a empresa, sobre educação de filhos, etc. Pedi ao menino se ajudava nas tarefas de casa, se tinha animal de estimação em casa; disse que sim. Pedi se ele ajudava ajuntar os cocôs, disse que só ajuntava os “secos”. Pedi se ele queria ajuntar o cocô da Emy, respondeu que não. Parabenizei ele por ajudar, mesmo que só os secos, e que o importante era ajudar.
Ajuntei o cocô, coloquei no saquinho de plástico, nos despedimos, ele seguiu seu passeio e eu segui a caminhada com a Emy.
E fiquei refletindo sobre aquela ordem que me dizia com muita força: não precisa ajuntar…
De onde veio aquele pensamento? Sua intensidade? Mais um pouco e eu teria cedido à tentação de não ajuntar o cocô.
Lembrei do livro do Dan Ariely, “A (Honesta) Verdade sobre a Desonestidade” a partir de dezenas de experimentos, deixa claro: “…. nós seres humanos, somos dilacerados por um conflito fundamental: nossa propensão profundamente arraigada a mentir para nós mesmos e para os outros, versus o desejo de nos vermos como pessoas boas e honestas”.
Mentir para si próprio, enganar-se a si próprio como se nenhum mal produzisse tal atitude mental, é uma doença que corrói a integridade, a confiança e os relacionamentos. Pois por mais que tentemos manter a aparência de honestidade, de decência, vez ou outra, poderemos ser flagrados na mentira, na falsidade, visto ser praticamente impossível tamanha perfeição da mentira, entre o que falamos e como agimos em todos os momentos e em todas as circunstâncias e com todas as pessoas.
E não precisa muita coisa para sermos traídos por nós mesmos.
Daí a importância e o esforço para a autovigilância, para a autoconsciência sobre a decência, sobre a honestidade(material e intelectual), de estar atento àquilo que é o correto a fazer, em qualquer situação. E ainda mais sério: levar nossos filhos a adquirir tais hábitos.
Uma pessoa que se esforça para ter este conjunto de valores em sua vida, certamente pode considerar-se das mais livres, das mais serenas, e com paz no coração.
Edésio Reichert
14 de julho de 2025.

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